Conquistar a nota mil na redação do ENEM é o maior desafio para milhões de estudantes brasileiros. Em 2024, esse nível de excelência foi atingido por apenas 12 candidatos em todo o país, um número ainda mais restrito que os 22 recordistas de 2022.
Para alcançar esse patamar, não basta apenas “escrever bem”; é fundamental dominar a estrutura da dissertação-argumentativa, selecionar argumentos que fujam do senso comum e apresentar um repertório sociocultural que fundamente sua tese com autoridade.
Entender como cada uma das cinco competências é avaliada, do domínio da norma culta à proposta de intervenção, é o diferencial entre uma nota mediana e a vaga na universidade. Confira a seguir uma análise detalhada de uma redação real e aprenda os passos práticos para gabaritar o seu texto.
Como é a redação do ENEM?
A redação do ENEM exige exclusivamente o gênero dissertativo-argumentativo, no qual o objetivo central é defender um ponto de vista, ou tese, de forma clara, concisa e baseada em argumentos lógicos para persuadir o corretor.
O texto deve demonstrar conhecimento de mundo e pensamento crítico, substituindo “achismos” por uma fundamentação baseada em dados científicos, leis, pensadores contemporâneos e um repertório sociocultural sólido.
Além de exigir o domínio da norma culta da língua portuguesa, a estrutura se diferencia por obrigar a apresentação de uma proposta de intervenção na conclusão, que deve oferecer uma solução prática para o problema discutido respeitando os direitos humanos.
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Introdução:
É fundamental que a introdução aborde 3 períodos, ou frases, na seguinte ordem: contextualização, defesa da tese e retomada do tema.
Desse modo, vários mecanismos podem ser usados para contextualização, que você pode entender melhor aqui: como fazer uma introdução adequada para o ENEM?
Vale ressaltar que a retomada do tema, mesmo que seja breve, garante que o corretor não termine a redação de forma precipitada. Embora pareça repetitivo, é um erro grave supor que o leitor já sabe sobre o assunto.
Desenvolvimento:
Os argumentos são dispostos em 2 parágrafos de desenvolvimento na fórmula da estrutura mais tradicional.
O primeiro período, ou o tópico frasal, do primeiro parágrafo do desenvolvimento deve conter uma declaração sobre o assunto. Em seguida, explique e exemplifique.
Para os 2 parágrafos de desenvolvimento, essa sequência deve ser repetida. Afinal, isso garante que seu texto contenha uma argumentação sólida, explicação e exemplificação.
Conclusão:
A conclusão é a conclusão de todas as ideias apresentadas durante a redação. O ENEM difere por ter como objetivo principal concluir com uma proposta de intervenção. A retomada do tema está presente em todo o texto, como mencionado anteriormente.
Agora é hora de concluir tudo após identificar os problemas causados pela frase-tema e apresentar a solução nos desenvolvimentos. Como posso fazer isso? Por meio de uma proposta de uma solução e identificando quais agentes serão responsáveis por ela.
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Análise de redação do ENEM
A análise de redação do ENEM possui um impacto significativo na pontuação final do exame, e vai além da verificação de gramática e ortografia.
Assim, essa análise visa avaliar a capacidade dos candidatos de formular argumentos sólidos, apresentar ideias coerentes e refletir sobre questões sociais e contemporâneas.
Desse modo, vamos analisar a redação da aluna Nayara do ENEM de 2022 com o tema “Desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil”. A pontuação da aluna foi de 960 no total, tendo prejuízo apenas na competência I do ENEM.

Competências
A competência I do ENEM diz respeito a “Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa”. Nesse sentido, os problemas apresentados na redação são:
- Formalidade do idioma;
- Construção sintática;
- Ortografia (Acordo Ortográfico vigente);
- Uso de hífen;
- Emprego de letras maiúsculas e minúsculas;
- Regência verbal e nominal;
- Paralelismo sintático;
- Uso da crase;
- Emprego de pronomes;
- Concordância verbal e nominal;
- Emprego de vocabulário preciso.
Assim, seguindo esses parâmetros, a redação corrigida pode variar a nota, ou seja, pode ir de 0 a 200. Nesse caso, a redação levou 160 pontos, visto que apresenta problemas na modalidade formal da língua portuguesa. Então, veja a seguir a pontuação:
- 200 pontos: domínio excelente da modalidade formal da língua portuguesa. Os erros são exceções e não reincidem.
- 160 pontos: bom domínio da modalidade formal. Poucos desvios gramaticais ou de convenções de escrita.
- 120 pontos: domínio mediano da modalidade formal. Alguns erros de gramática ou de convenções de escrita.
- 80 pontos: domínio insuficiente da modalidade formal da língua portuguesa. Muitos erros gramaticais ou de convenções de escrita. Pode apresentar linguagem informal.
- 40 pontos: domínio precário da modalidade formal. Erros gramaticais diversos, registro muito informal ou problemas de convenções de escrita.
- 0 pontos: desconhecimento da modalidade formal da língua portuguesa.
Transcrição da redação:
Introdução:
“Segundo o sociológico Zygmunt Bauman, nenhuma sociedade que esquece a arte de questionar pode encontrar respostas para os problemas que a afligem. A partir dessa máxima, contextualiza-se a problemática de não negligenciar os desafios para a valorização das comunidades e povos tradicionais do Brasil.”
Veja, nesse primeiro parágrafo foi incluso repertório sociocultural. Então, ao seu fim, retomou-se a proposta do texto como uma chamada para os parágrafos de desenvolvimento.
Desenvolvimento 1:
“Nesse viés, a retratação da história do Brasil de forma eurocêntrica é um fator que impede a valorização dos nativos. No ano 1500, os portugueses ao, por conseguinte, tomaram posse dos povos e de sua cultura, assim subtraindo-se da originalidade destes e prevalecendo os costumes europeus. Em analogia, após mais de 500 anos esse contexto ainda perdura no Brasil, visto que no meio educacional muito se discute sobre as conquistas dos ocidentais, mas pouco se fala do papel dos originais brasileiros na construção da nação. Desse forma, a atual didática de ensino da história brasileira nas escolas cria um ambiente de desvalorização dessa parcela social.”
Aqui, o desenvolvimento, formado pelos segundo e terceiro parágrafos da redação, atendeu ao objetivo central, o qual é demonstrar a relevância da tese apresentada apresentando as ideias com seus fundamentos.
Desse modo, a aluna trouxe uma referência histórica, demonstrando uma hipótese acerca da origem dos desafios da valorização dos povos originários.
Então, seu primeiro argumento pauta-se nas problemáticas do ensino de história nas escolas, sendo este um dos motivos apresentados para justificar essa falta de valorização.
Desenvolvimento 2:
“Além disso, a ausência de representatividade dessa população também é um fator determinante para a problemática. No movimento literário Romantismo do século XVIII, o índio Guarani, tradicional do Brasil era retratado de forma heroica e idealizada. No entanto, essa valorização não é mais realidade no país, dado que nos meios artísticos e midiáticos privilegiam-se os brancos, além de que poucos papéis são inspirados nessa comunidade, o qual gera sua invisibilidade. Logo, a falta dessa representação impossibilita que ao menos os brasileiros saibam da importância e existência desses povos.”
Por meio dessa construção, a autora do texto enfatiza e estrutura a ideia de que o problema central é a falta de informação, de acordo com a sua tese.
Além disso, o repertório sociocultural está indicado ali com o livro O Guarani de José de Alencar, demonstrando conhecimento de mundo para tratar do assunto.
Conclusão:
“Logo, é inaceitável que esse cenário de desvalorização continue a perdurar. Portanto, cabe ao Ministério da Educação, responsável pela formação educacional da nação verde e amarela, inserir a cultura e importância dos nativos do Brasil nos livros didáticos de história, através de relatos, fotos, informações, para que assim esses sejam valorizados desde cedo. Ademais, cabe às redes televisivas criar papéis que representem essa parcela social por meio das formas de entretenimento, como filmes e novelas, a qual insere-se a realidade destes junto ao do brasileiro urbano, a fim de que todos os indivíduos da pátria tomem conhecimento acerca desses povos, assim reconhecendo como irmãos e os valorizando. Nessa ótica, pode-se encontrar respostas e soluções para que estes sejam valorizados.”
Aqui, houve a proposta de intervenção completa, tendo todos os elementos cruciais observados pelos GOMIFES.
Na conclusão, a aluna se preocupou em retomar a tese e se concentrou em resolver a questão da falta de informação. Por fim, a autora do texto discutiu todas as questões importantes e apresentou sugestões realistas.
Quais os critérios de avaliação da redação do ENEM?
Os critérios de avaliação da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) são os seguintes:
- Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa: Avalia se o participante consegue utilizar as regras gramaticais e ortográficas da língua portuguesa de forma correta e adequada.
- Compreender a proposta da redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo: Verifica se o participante compreendeu a proposta da redação e se consegue desenvolver o tema proposto de forma clara e coesa, utilizando argumentos e exemplos pertinentes.
- Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista: Analisa a capacidade do participante em selecionar informações relevantes para a defesa de seu ponto de vista, relacioná-las de forma lógica e organizada, e interpretá-las de maneira coerente.
- Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação: Verifica se o participante consegue utilizar os recursos linguísticos adequados para a construção de uma argumentação sólida e bem fundamentada.
- Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos: Avalia se o participante consegue apresentar uma proposta de intervenção eficaz e respeitosa aos direitos humanos, relacionada ao tema abordado na redação.
Cada um desses critérios é avaliado por dois avaliadores independentes, e a nota final da redação é a média aritmética das notas atribuídas por esses avaliadores, podendo variar de 0 a 1000 pontos. Em caso de discrepância significativa entre as notas atribuídas pelos avaliadores, a redação é submetida a um terceiro avaliador para uma nova avaliação.
Correção do CRIA
Após observar a nota informada pela banca corretora, passamos a redação pelo CRIA. Assim, sabemos que a nota final nem sempre é um consenso e pode variar de corretor para corretor. No CRIA, a redação levou 920 pontos, apresentando problemas na competência I e na competência III.

A competência 3 diz respeito a “Seleção e organização de informações, argumentos e fatos em defesa de um ponto de vista.” apontando erro de redundância. Isto é, de repetição de palavras para tratar sobre o mesmo tópico. Então, veja os aspectos da competência 3:
- 200 pontos: apresenta informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, de forma consistente e organizada, configurando autoria, em defesa de um ponto de vista.
- 160 pontos: apresenta informações, fatos e opiniões relacionados ao tema, de forma organizada, com indícios de autoria, em defesa de um ponto de vista.
- 120 pontos: apresenta informações, fatos e opiniões relacionados ao tema, limitados aos argumentos dos textos motivadores e pouco organizados, em defesa de um ponto de vista.
- 80 pontos: apresenta informações, fatos e opiniões relacionados ao tema, mas desorganizados ou contraditórios e limitados aos argumentos dos textos motivadores, em defesa de um ponto de vista.
- 40 pontos: apresenta informações, fatos e opiniões pouco relacionados ao tema ou incoerentes e sem defesa de um ponto de vista.
- 0 pontos: apresenta informações, fatos e opiniões não relacionados ao tema e sem defesa de um ponto de vista.
Perguntas frequentes:
A redação deve seguir o gênero dissertativo-argumentativo, sendo composta por três partes essenciais: introdução (com contextualização e tese), desenvolvimento (geralmente dois parágrafos com argumentos e exemplos) e conclusão (com foco na proposta de intervenção). É fundamental que o texto apresente um projeto claro e fuja de achismos, utilizando dados e leis para embasar a opinião.
É o uso de conhecimentos externos — como sociologia, história, literatura ou atualidades — para validar seus argumentos. No exemplo analisado, a candidata utilizou o sociólogo Zygmunt Bauman na introdução e a obra literária O Guarani no desenvolvimento para dar autoridade ao seu texto.
Cada uma das cinco competências vale de 0 a 200 pontos. A nota final é a média aritmética das pontuações atribuídas por dois avaliadores independentes, totalizando até 1000 pontos. Se houver uma discrepância muito grande entre eles, um terceiro avaliador é acionado.
A conclusão deve apresentar uma solução realista para o problema discutido, identificando os agentes responsáveis (GOMIFES: Governo, Ongs, Mídia, Indivíduo, Família, Escola, Sociedade). No caso analisado, a aluna sugeriu ações para o Ministério da Educação e para redes televisivas a fim de combater a falta de informação sobre povos tradicionais.
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