O termo Justiça Climática transcende a esfera da ciência e da ecologia, fincando suas raízes mais profundas na sociologia, na ética e nos direitos humanos.
Ele nos lembra de que os impactos das mudanças climáticas não são neutros, afetando de forma desproporcional as populações mais vulneráveis: as nações mais pobres, as comunidades tradicionais e os grupos socialmente marginalizados.
Para construir um argumento realmente persuasivo e interdisciplinar, seja em uma redação de vestibular, um artigo acadêmico ou um debate público, é fundamental dominar o repertório sociocultural sobre justiça climática. O repertório é a prova de que sua tese dialoga com o conhecimento acumulado pela humanidade.
Este guia é uma curadoria essencial de obras, conceitos e figuras históricas para que você possua o arsenal completo para contextualizar a crise climática como uma crise de desigualdade.
O que é Justiça Climática?
A Justiça Climática é um conceito que enquadra o aquecimento global como uma questão ética e política, e não apenas ambiental ou física. Ela argumenta que quem menos contribuiu para as emissão de gases do efeito estufa (comunidades pobres e países em desenvolvimento) é quem mais sofre e sofrerá com seus efeitos (secas, inundações, elevação do nível do mar).
A busca por repertório sociocultural sobre justiça climática passa, invariavelmente, por entender essa distribuição desigual de responsabilidades e vulnerabilidades.
Você também pode se interessar por:
- Repertório de Inteligência Artificial para citar no ENEM
- Repertório sociocultural sobre aporofobia
- Repertorio sobre ressocialização de detentos
Diferença-chave: Mudança Climática vs. Justiça Climática:
A diferença entre os dois conceitos é fundamental. Primeiramente, é preciso entender a Mudança Climática. Este termo descreve o fenômeno físico , ou seja, o aumento da temperatura média global e suas consequências ambientais.
No entanto, a Justiça Climática move o foco para uma análise social e ética. Isto é, ela enquadra o aquecimento global como uma questão de direitos humanos. Portanto, a Justiça Climática levanta questões cruciais sobre a distribuição dos impactos.
Por exemplo, o debate se concentra em: Quem causou a maior parte das emissões históricas? Em seguida, quem paga o custo da adaptação e da mitigação? E, finalmente, quem sofre de forma desproporcional com os desastres climáticos?
Consequentemente, a Mudança Climática foca no “o quê” do problema. Já a Justiça Climática questiona o “quem” e o “porquê” da desigualdade de impacto. Assim, essa distinção é vital para um argumento robusto.
Fontes de Repertório: obras, conceitos e filósofos
Um argumento de peso é sempre suportado por referências de alta autoridade. Utilize estas sugestões para estabelecer a conexão direta entre a crise climática e a luta por equidade social.
1. A lente sociológica e filosófica
O campo da sociologia fornece as bases para entender a vulnerabilidade social e a interseção de crises.
Conceito-Chave: Racismo Ambiental (Robert Bullard):
Bullard, considerado o “pai do movimento de justiça ambiental” nos EUA, demonstrou como comunidades de minorias raciais são desproporcionalmente expostas a riscos ambientais (lixões, poluição industrial).
Essa é uma ponte direta para o repertório sociocultural sobre justiça climática, pois as populações marginalizadas tendem a viver em áreas de maior risco climático.
Como usar: cite o conceito para argumentar que a ausência de planejamento urbano e políticas de mitigação no Brasil é um reflexo do racismo ambiental estrutural.
Filósofo: Hans Jonas e o Princípio Responsabilidade:
Em sua obra, Jonas propõe uma ética voltada para o futuro. A humanidade, detentora de um poder tecnológico sem precedentes, tem a obrigação moral de garantir a permanência da vida no planeta. A responsabilidade intergeracional é a base moral da justiça climática.
Pensador Brasileira: Ailton Krenak e Ideias para Adiar o Fim do Mundo:
O líder indígena oferece uma crítica à ideia de “humanidade separada da natureza”. Seu pensamento é um poderoso repertório sociocultural sobre justiça climática, pois eleva o conhecimento ancestral sobre o cuidado com o território a uma proposta de sobrevivência global.
2. Referências artísticas e midiáticas:
As artes são ferramentas poderosas para engajar o público e visualizar a crise.
Filme: Os Miseráveis (2012):
Embora não trate de clima, a obra de Victor Hugo (e suas adaptações) é um excelente repertório para ilustrar a miséria e a vulnerabilidade social extrema. Ao citá-lo, você pode traçar um paralelo: a mesma desigualdade social exposta por Hugo é a que define quem tem condições de se proteger de eventos climáticos extremos no presente.
Onde assistir? Prime Video
Documentário: O Amanhã é Hoje
Documentário brasileiro que relata o drama de seis brasileiros em diferentes regiões do país que foram impactados por eventos climáticos extremos. Além disso, oferece uma visão localizada e humanizada dos impactos, sendo ideal para contextualizar a Justiça Climática dentro da realidade nacional e mostrar a urgência de ações de adaptação e resiliência.
Série de TV: Years and Years (2019):
Esta produção futurista da BBC mostra o impacto das crises climáticas e políticas na vida de uma família, expondo como a instabilidade afeta a economia, a migração e a segurança das classes média e baixa. Um forte repertório sociocultural sobre justiça climática em um formato popular.
Onde assistir? Prime Video
3. Exemplos brasileiros de injustiça climática e desastres socioambientais
Aqui estão dois exemplos de grande repercussão que ligam diretamente a irresponsabilidade corporativa e a fragilidade regulatória à vulnerabilidade das comunidades:
1. Rompimento da Barragem de Fundão (Mariana, MG, 2015)
O desastre de Mariana, considerado a maior tragédia ambiental da história do Brasil, é um caso emblemático de injustiça socioambiental.
- Recuperação Desigual: A lentidão na reparação dos danos e a dificuldade de acesso à justiça para as vítimas ilustram a injustiça na recuperação, reforçando a ideia de que quem é pobre e marginalizado sofre o impacto por mais tempo.
- Ocorrência: Em novembro de 2015, a barragem de rejeitos de mineração de Fundão, operada pela Samarco (uma joint venture da Vale e BHP Billiton), se rompeu, liberando milhões de metros cúbicos de lama tóxica que devastaram o distrito de Bento Rodrigues, matando 19 pessoas e poluindo a Bacia do Rio Doce até o Oceano Atlântico.
Conexão com Justiça Climática/Ambiental:
- Vulnerabilidade e Racismo Ambiental: As comunidades atingidas, como Bento Rodrigues e os povos indígenas Krenak, eram predominantemente de baixa renda e dependentes da agricultura e do rio para subsistência. Elas foram as que mais sofreram a perda de vidas, moradias e o colapso de seus modos de vida.
- Responsabilidade Corporativa: O desastre evidenciou a negligência da empresa em relação à segurança estrutural da barragem e a falha do poder público na fiscalização, colocando o lucro acima da vida e do meio ambiente.
2. Rompimento da Barragem I da Mina Córrego do Feijão (Brumadinho, MG, 2019)
O rompimento em Brumadinho, ocorrido apenas quatro anos depois de Mariana, é um trágico exemplo de falha em aprender com desastres anteriores.
- Ocorrência: Em janeiro de 2019, a barragem operada pela mineradora Vale se rompeu, matando 270 pessoas (a maioria funcionários e moradores da região) e destruindo a área administrativa da mina e comunidades locais.
- Conexão com Justiça Climática/Ambiental:
- Foco no Social: Este evento destacou a morte de trabalhadores e a destruição da área urbana de Brumadinho, enfatizando o impacto humano imediato da irresponsabilidade corporativa.
- Reincidência e Impunidade: A repetição do desastre sob a mesma empresa (Vale), após o caso Mariana, é um poderoso argumento sobre a impunidade ambiental no Brasil e como a legislação e fiscalização falham em proteger as comunidades e o meio ambiente de riscos previsíveis.
- Vulnerabilidade no Trabalho: Atingiu principalmente trabalhadores de baixo escalão e terceirizados, que estavam mais expostos ao risco da estrutura, reforçando o lado da justiça social dentro da pauta climática e ambiental.
Como usar no repertório?
Ao citar Brumadinho ou Mariana, você pode argumentar que esses desastres são a manifestação tecnológica da injustiça climática no Brasil. Eles demonstram que as populações vulneráveis não apenas sofrem mais com os eventos naturais (enchentes, secas). Mas também são as principais vítimas da irresponsabilidade humana e corporativa que prioriza o capital em detrimento da vida e da integridade ecológica.
Exemplo de uso do Repertório Sociocultural na redação do ENEM
Tema Fictício: A persistência da desigualdade social como obstáculo para a adaptação climática no Brasil.
Parágrafo de Desenvolvimento (D1):
É inegável que a desigualdade social é o motor da crise de adaptação climática no Brasil, conforme sustentado pelo conceito de Racismo Ambiental de Robert Bullard. Nesse sentido, Bullard demonstra que comunidades de minorias raciais e de baixa renda são desproporcionalmente expostas a riscos ambientais, o que se reflete diretamente na vulnerabilidade climática. Por exemplo, observamos essa injustiça no caso do rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana (2015). O desastre, um marco da irresponsabilidade corporativa da Samarco, devastou o distrito de Bento Rodrigues, onde a maioria dos atingidos dependia do rio e possuía pouca ou nenhuma reserva financeira. Desse modo, a tragédia ilustra que, mesmo em face de desastres tecnológicos, as vítimas mais severas são sempre aquelas já marginalizadas pelo sistema. Portanto, o acesso desigual a moradia segura, saneamento básico e planos de contingência transforma a catástrofe climática de um evento natural em uma tragédia social previsível e evitável.
| Repertório Utilizado | Fonte | Função no Argumento |
| Racismo Ambiental (Robert Bullard) | Sociologia/Ativismo | Usado como citação de autoridade para fundamentar a tese de que vulnerabilidade e raça/classe se conectam. |
| Rompimento da Barragem de Fundão (Mariana, 2015) | Fato Histórico/Socioambiental Brasileiro | Usado como exemplo concreto (Estudo de Caso) que comprova a tese do Racismo Ambiental e da Injustiça Climática em solo nacional. |
Resultado: O parágrafo é coeso, utiliza referências de diferentes áreas do conhecimento e as conecta diretamente ao tema proposto, atendendo às exigências de repertório e produtividade da redação do ENEM.
Perguntas frequentes:
A mudança climática é o fenômeno físico (o aumento da temperatura global). Em contrapartida, a justiça climática é a análise ética e social sobre a distribuição desigual das causas, responsabilidades e impactos desse fenômeno.
O sociólogo e ativista americano Robert Bullard, considerado o “pai do movimento de justiça ambiental” nos Estados Unidos, popularizou o conceito ao estudar a desproporcionalidade de riscos ambientais em comunidades de minorias raciais.
É um princípio fundamental da diplomacia climática (incluso na Rio-92 e no Protocolo de Kyoto) que reconhece que, embora todos os países sejam responsáveis pela proteção do clima, os países desenvolvidos (que mais emitiram historicamente) possuem a maior responsabilidade e devem arcar com a maior parte dos esforços de mitigação e financiamento.
Referências:
BULLARD, Robert D. Dumping in Dixie: race, class, and environmental quality. Boulder: Westview Press, 1990.
JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto/Ed. PUC-Rio, 2006.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
PROTOCOLO DE KYOTO. In: MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações). [S.l.]: MCTI, 1997. Disponível em: [Inserir URL do documento oficial se aplicável]. Acesso em: [Inserir data de acesso].
VAZAMENTO DE GÁS DA UNION CARBIDE. In: Bhopal Medical Appeal. [S.l.]: Bhopal Medical Appeal, 1984. Disponível em: [Inserir URL de fonte confiável sobre o desastre]. Acesso em: [Inserir data de acesso].
Esse artigo foi útil?
Média da classificação 0 / 5. Número de votos: 0
Lamentamos que este post não tenha sido útil pra você.
Vamos melhorar este post.
Como podemos melhorar esse post?




